André sentou-se num banco velho daquela praça um tanto quanto inóspita, ao lado de uma simpática senhora que também sempre estava por ali. André a cumprimentou com um aceno sutil e ficaram os dois observando as crianças, que se acotovelam e se empurravam pra ver quem ia brincar numa das duas gangorras enquanto a outra estava vazia.

- Interessante, disse André.

- Perdão?, respondeu a senhora.

- Interessante essa cena dos garotos ali nos brinquedos, completou o raciocínio André. Veja: se algum garoto resolver brincar na gangorra parada aposto que os outros se acotovelarão para fazer o mesmo. É tudo uma questão de querer ser igual a todo mundo. Isso funciona, pra mim, perfeitamente como uma metáfora da vida; as pessoas têm diariamente oportunidades de serem diferentes, de possuírem um brinquedo só seu, mas não querem.

- Acredito que seja justamente por ter de ficarem sozinhas que as pessoas não escolham um brinquedo só delas. Qual a graça de brincar sozinho? Qual a graça de não haver pessoas disputando um lugar para ser, porque não dizer, igual a você?

André já não prestava mais atenção nas crianças e olhava a senhora com um olhar atento, interessado, como se estivesse aprendendo algo novo.

- Veja, meu jovem…

- André.

- Veja, meu jovem André. As pessoas têm uma necessidade quase que genética de seguirem tendências e modelos, certos ou errados. É demasiado dolorido, na maioria dos casos, ser a bola branca da mesa da sinuca, entende? A escolha pelo isolamento, seja físico, seja intelectual, requer a clara consciência de que na maior parte das vezes você estará verdadeiramente sozinho na gangorra.

André permaneceu imóvel e agradavelmente surpreso com a senhora, que se despediu, chamou pelo neto e foi embora.

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